domingo, 19 de abril de 2009

Protógenes, a farsa?

Protógenes Pinheiro Queiroz. Todos cidadão brasileiro com o mínimo de atenção à mídia sabe que esse é nome do delegado da polícia federal mentor da operação Satiagraha, que resultou na prisão do banqueiro Daniel Dantas, do investidor Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. Também não é novidade que agora é Protógenes quem está sendo investigado, sob suspeita de ter utilizado ilegalmente agentes da Abin, de ter feito grampos ilegais e de ter vazado informações à mídia. Acusações estas que o delegado atribui como obra de Dantas, que teria usado sua poderosa influência para inverter os papéis e promovê-lo a bandido da história.

Pois bem, não vou adentrar nas entranhas da operação Satiagraha. Escutas ilegais, agentes da Abin, vazamento de informações... tudo isso ainda será motivo de muita discussão. Vou centrar-me apenas na figura de Protógenes Queiroz.

O delegado está acostumado a operações midiáticas. Foi ele quem averigou a parceria entre Corinthians e MSI, participou das investigações que resultaram na prisão de Paulo Maluf por lavagem de dinheiro e "pilhagem dos cofres públicos" (segundo escreveu no relatório da operação) e encarcerou King Chong, o maior contrabandista do Brasil. Segundo dizem, Protógenes é obcecado em desvendar crimes financeiros.

Essa obcessão, porém, levou-o a cometer graves equívocos na Satiagraha. Na ânsia por colocar Daniel Dantas atrás das grades (lugar que lhe é mais do que merecido, diga-se de passagem), Protógenes acabou deslegitimando as provas obtidas. Quando Gilmar Mendes liberou Dantas da prisão, Protógenes iniciou uma cruzada.

Auto intitulando-se "cavaleiro da esperança" (tal qual Luís Carlos Prestes), Protógenes começou a percorrer o Brasil denunciando a perseguição que vinha sofrendo e alertando a população sobre as mazelas da corrupção no Brasil. É nesse momento que começo a ter dúvidas sobre os reais objetivos do delegado.

Protógenes começou a se aproximar do PSOL. Era o partido quem promovia as palestras do delegado e o levava a discursar em comícios. Luciana Genro (deputada federal pelo Rio Grande do Sul) e Heloísa Helena (atualmente vereadora em Maceió) eram constantemente fotografadas ao seu lado. A aproximação era cada vez maior. Surgiram boatos de que o delegado tinha ambições política futuras, e para isso usava o PSOL para ter maior exposição à mídia (e ao eleitorado).


Tasso Marcelo - Agência Estado

"Entrar na política seria a última coisa que eu pensaria" , afirmou o delegado, que também considerou as manifestações de políticos em seu apoio como tradução de um sentimento de indignação da sociedade contra a corrupção. A declaração foi dada em 1 de dezembro de 2008, e está disponível em http://www.estadao.com.br/nacional/not_nac286794,0.htm.

É no mínimo curioso constatar a mudança de seu discurso. "Para falar a verdade, eu não tenho simpatia para ser político não, e sim para ser delegado de polícia. Mas não posso desprezar toda essa vontade popular. Tenho de considerar com muito respeito e carinho". A declaração data de 19 de março de 2009, e está disponível em http://www.estadao.com.br/nacional/not_nac341639,0.htm.

Fica a dúvida: qual o verdadeiro intuito de Protógenes?

Não duvido nem um pouco de sua obcessão em colocar Daniel Dantas atrás das grades. E todos temos que aplaudir seu esforço, que considero verdadeiro e legítimo, em sanar o Brasil do mal da corrupção. Porém, está cada vez mais evidente que Protógenes é um grande narcisista com claras ambições políticas.

Prova de seu narcisismo é seu blog, http://blogdoprotogenes.com.br/. Nele, o delegado constantemente "superfatura" seu esforço e exacerba a perseguição que vem sofrendo, e utiliza-se de frases já bem consagradas entre os políticos populistas, exaltando a sua fé cristã e clamando o povo brasileiro a apoiá-lo. Exemplo: "É por intermédio de minha fé cristã - e com esse imenso apoio popular - que diariamente renovo minhas forças contra toda injustiça!".

Mas o que mais chama atenção é a sua aproximação do PSOL. Isso configura-se como atividade político-partidária, proibida pelo artigo 43, inciso 12, da Lei 4.878/65 do regime jurídico da Polícia Federal. O partido, inclusive, custeou viagens do delegado com dinheiro da União. Segundo divulgou o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, Luciana Genro emitiu de seu gabinete ao menos duas passagens de Protógenes a Porto Alegre. A prática, em si, não é ilegal, já que todo parlamentar tem uma cota de viagem para ser gasta em eventos políticos. A própria deputada federal explica: "Se não usarmos nossa cota de passagens, elas são canceladas. Acho normal que possam ser usadas para fazer política". O PSOL está certíssimo. Há pouco foi escancarado o escândalo das passagens aéreas. O deputado Inocêncio de Oliveira (PR-PE), por exemplo, usou suas cotas para que esposa, filhas e netas viajassem para os EUA e Europa. Portanto, o PSOL não feriu de nenhuma forma a constituição federal (embora eu seja veementemente contra essa cota de passagens aéreas, que serão abordadas num futuro post). Quem quebrou as regras foi o delegado.

Mas esse não foi o primeiro envolvimento de Prototógenes com política. Tramita na justiça um processo que investiga a participação do delegado em comícios de Paulo Tadeu D´Arcadia (PT) em sua candidatura à prefeitura de Poços de Caldas. Por isso, Protógenes foi afastado da Polícia Federal no dia 13 abril. Há fortes indícios de que será expulso da corporação.

Enfim, Protógenes está cada vez mais presente na mídia, e é evidente seu esforço para que a exposição seja cada vez maior. Se for expulso da Polícia Federal, o que provavelmente acontecerá, terá caminho livre para seguir carreira política. Popularidade ele já tem. Partido, parece que também. Resta saber a que cargo ele será postulante. Deputado Federal? Provavelmente. Senador? Quem sabe. Os mais audaciosos apostam até que ele seja candidato a vice-presidente nas eleições de 2010, com Heloisa Helena concorrendo à presidência.

O fato é que as ambições do delegado não ficam restritas ao encarceramento de Daniel Dantas. Talvez ele possa fazer mais pelo Brasil entrando na política. Talvez. Mas todos devemos ter cuidado com Protógenes Queiroz, pois seu egocentrismo e sua ânsia pela popularidade podem levá-lo a tomar atitudes meramente populistas e fazer declarações que não condizem com a verdade. Prova disso são suas inúmeras contradições na CPI dos Grampos. Na política vale tudo, e as versões valem mais do que os fatos em si. Temos que ter cuidado com a versão proferida por Protógenes. Pode haver um lobo nessa pele de cordeiro.

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