quarta-feira, 15 de julho de 2009

Meias verdades, grandes mentiras?

É inegável que a imprensa tem cumprido, em parte, seu dever de "guardiã da sociedade", fiscalizando ostensivamente os desvios (éticos e financeiros) do Congresso Nacional. O problema se dá no direcionamento proposital das denúncias.

O verdadeiro fuzilamente que Sarney vem sofrendo da grande imprensa é, por um lado, justificável. Afinal, o presidente do Senado está intimamente ligado aos atos secretos, tem parentes vivendo às custas do dinheiro público, recebeu auxílio-moradia de R$3,6 mil por mês "sem que soubesse", não declarou mansão de R$ 4mi ao Tribunal Eleitoral, e levou um duro golpe com as recentes denúncias de desvio de verbas que a Fundação Sarney recebeu da Petrobrás (de acordo com o ESTADAO, dos R$1,3 mi repassados pela Petrobrás, ao menos R$ 500 mil foram para empresas fantasmas ou de firmas da família Sarney - veja matéria aqui).

São louváveis as denúncias que a imprensa tem promovido, bem como o trabalho investigativo da mesma. Escândalos e desvio de conduta dos nossos políticos não devem ser tratados com piedade. O problema é que só determinados parlamentares, selecionados a dedo pela grande imprensa, sofrem esse massacre.

Peguemos a denúncia envolvendo a Fundação Sarney, por exemplo. É mais do que merecido que Sarney sofra investicações e arque com as consequências (inclusive pode perder o mandato, já que quebrou o decoro parlamentar ao mentir, dizendo que não é responsável pela Fundação - ele é o presidente vitalício). Mas a imprensa poderia aproveitar a pauta e investigar outros casos semelhantes.

O Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) angariou em 2002 R$ 5,7 mi para digitalizar o acervo do ex-presidente com incentivos fiscais da Lei Rounet (mesma aritimanha utilizada por Sarney para obter recursos da Petrobrás). A denúncia é do blog "Os amigos do Presidente Lula", que, apesar de ser claramente petista (o próprio nome já elucida), faz ótimas matérias investigativas. O que faz a imprensa dar tanto destaque às falcatruas de Sarney, mas não emitir sequer uma nota sobre o caso semelhante envolvendo o ex-presidente do PSDB?

Outro exemplo da partidarização da grande mídia é o senador Arthur Vigílio (PSDB-AM). O amazonense é o queridinho da imprensa, sempre tendo matérias a seu favor (ressaltando a sua "excelente oposição" ao governo Lula e levando o público a crer que é um baluarte da ética no Senado). Mas a história não é exatamente essa.

Os grandes veículos só destacam as denúncias que Virgílio faz de Sarney e dos atos secretos, mas não dão atenção ao fato de que o próprio tucano tem negócios escusos no Senado. Uma excelente e imperdível análise disso fez Luis Nassif em seu blog - veja aqui.

Mas o episódio que me motivou a escrever nessa fria tarde jauense não tem nada a ver com o Congresso. O Estadão de hoje trouxe, na página 8 do caderno Nacional, a seguinte manchete: " 'Quero fazer justiça ao Collor', diz Lula, ao elogiar o ex-presidente ".

A frase, retirada de seu contexto, leva o leitor a crer que Lula quer defender Collor (atualmente senador pelo PTB) do impeachment que o ex-presidente alagoano sofreu em 1992, após inúmeras denúncias de corrupção. A matéria também afirma, no primeiro parágrafo, que Lula comparou Collor ao ex-presidente Juscelino Kubitschek (considerado um dos melhores presidentes brasileiros). A matéria completa está aqui.

O leitor mais desavisado pode ser levado a crer que Lula enlouqueceu e resolveu andar de mãos dadas com um de seus maiores desafetos políticos (que o derrotou nas eleições de 1989, ocasião na qual o programa eleitoral de Collor veiculou denúncias de baixo nível para atingir o petista). Mas o discurso, na íntegra, desmente o jornal da família Mesquita. Veja abaixo:



Fica claro que Lula, ao dizer que "quer fazer justiça ao Collor", está se referindo ao fato do alagoano integrar a base aliada de Lula no Senado. E sua comparação a JK se deve por ambos terem visitado o Maranhão quando presidentes da República. O próprio Estadão elucida isso no decorrer da matéria, mas quem ler apenas a manchete e o lead terá outro entendimento.

Não vou entrar na questão política de Lula estar no mesmo palanque de Collor (já que nosso presidente petista há muito jogou ao ar suas convicções éticas para se tornar um político pragmático, fazendo aliança até com o Diabo para manter a tão chamada "governabilidade" no Congresso). O fato é que o Estadão tirou frases de Lula de seu contexto original, dando outros sentidos a elas.

Estes são só alguns exemplos de como a imprensa veicula certos fatos. Ao contrário de vários blogs (nitidamente maniqueístas - "PT é o céu e o PSDB o inferno", e vice-versa) acredito que não há mocinhos em nossa política nacional (claro, sempre há raras exceções). O problema é que a mídia escolhe a dedo quem será o massacrado da vez, favorecendo alguns políticos (e partidos) em detrimento de outros. É ela a detentora do poder de manipular o público, veiculando apenas a parte que lhe convém da história.

É esse o argumento que muitos militantes políticos utilizam para descredibilizar as denúncias da imprensa. Afinal: meias verdades são grandes mentiras. Certo? Não.

O direcionamento das críticas da imprensa é condenável, mas as denúncias, em grande parte, são comprovadas. Não é porque a mídia diliberadamente oculta fatos dos políticos com os quais simpatiza que os escândalos envolvendo os demais parlamentares devem ser esquecidos. O fato de só a Fundação Sarney ser manchete - enquanto o iFHC permanece imune - não é motivo para centramos toda nossa crítica à imprensa e esquecermos das denúncias pela mídia reveladas.

As meias verdades da imprensa não devem ser desqualificadas, mas sim investigadas, pois de fato são reais. Em contrapartida, a própria mídia deve ser pressionada para que seja mais honesta na veiculação das matérias. Vale novamente ressaltar: não há mocinhos nessa história.

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